Nos últimos dias, uma notícia me chamou a atenção.
A Prefeitura de São Paulo levou o Programa Nova Paraisópolis ao Congresso Mundial de Arquitetos, em Barcelona, um dos mais importantes encontros internacionais sobre arquitetura e urbanismo. O programa foi apresentado como uma referência em urbanização integrada de assentamentos precários, reunindo habitação, infraestrutura, recuperação ambiental e qualificação dos espaços públicos.
Ao ler essa notícia, uma pergunta me veio imediatamente à cabeça:
O que faz um projeto urbano brasileiro ser apresentado em um dos maiores eventos de arquitetura do mundo?
A resposta certamente não é porque ele possui edifícios bonitos, nem porque representa uma grande obra de engenharia!
Na minha visão, ele ganha relevância porque representa uma maneira diferente de pensar a cidade. E talvez seja justamente aqui que esteja um dos maiores equívocos que ainda cometemos quando falamos sobre desenvolvimento urbano.
Nós costumamos acreditar que as cidades são construídas por edifícios, mas na verdade as cidades não são construídas por edifícios.
As cidades são construídas por decisões.
Muito antes dos prédios e construções saírem do papel, existem escolhas. Escolhas estas sobre onde as pessoas poderão morar, como irão se deslocar, onde haverá escolas, parques, hospitais e equipamentos públicos, como proteger recursos naturais, como controlar enchentes, como equilibrar crescimento econômico e qualidade de vida, e dentre tantas outras, como tornar um território mais seguro, mais eficiente e mais humano.
Os edifícios apenas materializam estas decisões tomadas muito antes do conceito dos projetos arquitetônicos existirem. E por este motivo, acredito que o verdadeiro papel do planejamento urbano ainda é pouco compreendido, e o papel dos profissionais ligados ao urbanismo (arquitetos, engenheiros e advogados) não valorizado como deveria!
Planejamento urbano não significa desenhar ruas ou definir índices urbanísticos! Planejar uma cidade é organizar interesses que, muitas vezes, parecem conflitantes, mas que dependem da análise de profissionais envolvidos, comprometidos, conscientes, e que amam o urbano e as pessoas, para ajudar a equilibrar habitação, infraestrutura, mobilidade, meio ambiente, desenvolvimento econômico, legislação e inclusão social.
É enxergar um território como um sistema, onde cada decisão produz consequências para toda a cidade!
Quando observo iniciativas como o Programa Nova Paraisópolis, vejo algo que vai muito além de um projeto de urbanização: Vejo um laboratório urbano.
Um território onde habitação, regularização, infraestrutura, saneamento, drenagem, recuperação ambiental, mobilidade e espaço público precisam funcionar como partes de uma mesma estratégia.
E esse talvez seja o maior ensinamento, pois nenhum desses temas pode ser tratado de forma isolada, pois a cidade também não funciona de forma isolada.
É exatamente essa visão integrada que sempre defendi ao longo da minha trajetória na Legalização Imobiliária.
Muitas pessoas e profissionais ainda enxergam a legalização apenas como uma etapa administrativa, mas na prática, ela participa de algo muito maior, já que ela ajuda a transformar planejamento em realidade e a garantir que as decisões tomadas no papel possam acontecer de forma segura, responsável e sustentável.
É uma atividade que conecta legislação, urbanismo, meio ambiente, infraestrutura, mobilidade e desenvolvimento econômico, por este motivo costumo dizer que projetos aprovados começam muito antes do protocolo. Eles começam quando alguém faz as perguntas certas!
O terreno comporta o uso pretendido?
Qual será o impacto na vizinhança?
Como esse empreendimento conversa com a infraestrutura existente?
Quais riscos precisam ser antecipados?
Que cidade estamos ajudando a construir?
Essas perguntas talvez não apareçam nas fotografias das obras prontas, mas são elas que definem se um empreendimento fará sentido para quem o utiliza e para a cidade que o recebe.
Talvez esteja na hora de mudarmos também a forma como discutimos o futuro das cidades!
Em vez de falarmos apenas sobre edifícios, poderíamos falar mais sobre território, planejamento, legislação, mais sobre mobilidade, infraestrutura e sustentabilidade.
Porque uma cidade nunca será a soma das obras que executamos, mas sim a soma das decisões que tivemos coragem — e responsabilidade — de tomar antes delas.